A revolta de Hugin

Hugin é o mais inteligente dos corvos. Tem sempre resposta para tudo. Não há enigma que não consiga resolver. Problema para o qual não tenha solução.
Hugin, é, contudo, desprovido de memória. A cada 24 horas, Hugin deixa de se lembrar do que ocorreu no dia anterior. Fica apenas o vazio.
A Memória está reservada ao seu fiel companheiro Munin. E apenas muito raramente se separam. Tal só acontece quando o seu amo os manda em missões diferentes. E foi numa dessas missões que Hugin perdeu Munin. Nunca mais o viu.
Os Aeons passam e Hugin, que vive cada dia como se fosse o único, vai ficando mais e mais amargo. Não compreende porquê e nem sequer se apercebe da sua revolta.
A giganta Gullveig, versada nas artes da Magia e surpresa por só ver um dos dois Corvos do Velho, não resiste e interpela Hugin: - Que foi que aconteceu? Onde está o Outro?
- O outro? - retorquiu Hugin inclinando ligeiramente a cabeça. - O outro corvo que costumava andar sempre contigo, Munin… A memória… Pois claro, não te lembras, não é? Hugin, continuando a não se lembrar, tem uma epifania.
- Giganta, tu que consegues falar a minha língua, podes ajudar-me a recuperar esse meu companheiro? - Tudo tem um preço, só necessitas de me apontar o caminho para Asgard. E a cabeça de Hugin vira-se instintivamente na direção certa… -Oops… Grata pela informação. Para recuperares o teu amigo terás de regressar a esta árvore todos os dias e cumprir as instruções que nela te deixo escritas. Ficas também com este caldeirão para que possas fabricar a poção aqui descrita.
Hugin apressa-se a ler a madeira da árvore:
“Hugin, para recuperar a memória terás, de aqui voltar a cada sol nascente,
duas gotas de orvalho no bico,
duas gotas no caldeirão de gente.”

-Só isto? - não me parece nada difícil, analisa o pensamento. Chegado o fim do dia, Hugin instala-se no melhor ramo com vista para os escritos. Quando abre os olhos percebe que se deve ter colocado ali por uma razão, e resolve cumprir o que dizia o tronco da árvore.
Apressa-se a ir buscar duas gotas de orvalho no bico. Mas quando as deixa cuidadosamente no caldeirão… cai apenas uma gota. E agora? Deve ele ir buscar mais duas gotas? Mas, se assim for, serão quatro ao todo. As instruções dizem duas. E duas no bico. A hipóteses não são animadoras. E Hugin fica cada vez mais revoltado. Esta é a única situação em que a matemática não o pode ajudar. Uma gota com outra gota será sempre igual a uma gota. Só a sua natureza o impede de voar alto e seguir o seu caminho.
Os dias sucedem-se e as gotas de orvalho vão acumulando no caldeirão mágico de Gullveig, que não as deixa evaporar.
Cansado, e com a sensação de ter repetido aquela tarefa vezes sem conta, Hugin olha para o caldeirão e vê-se a si mesmo. Atrás dele, lá muito em cima, há um ponto negro a circular uma nuvem muito alta.
Hugin voa até lá e reencontra o seu velho amigo Munin, também ele exausto.

-Hugin! Há nove Aeons que te procuro! Este foi o último sítio onde te deixei, e aqui tenho voltado a cada sol nascente. Não tinha onde mais procurar.

(Estória original. Os personagens Hunin, Munin e Gullveig já existiam na Mitologia Nórdica)